ESFOLANDO A FLIP 2010 – PARTE TRÊS

agosto 17, 2010

Acordei de madrugada com o barulho de chuva. Que ótimo, um evento literário a céu aberto com possibilidades de chuva. Pela manhã, o tempo não estava tão feio como pensei. Mesmo com frio, fomos à praia, mas sem coragem de entrar na água. Chegamos tarde na palestra da Patrícia Melo e só vimos o finzinho pelo telão. Ela é considerada “a Rubem Fonseca de saia” e eu gosto muito do seu estilo de escrita. Na pequena fila de autógrafos, encontro Juliana, uma conhecida de Brasília. Na nossa vez, Patrícia Melo nos recebeu muito bem. Dei-lhe um “Grosseria Refinada” e ela assinou seu novo livro “Ladrão de Cadáveres”, que eu ainda não li ainda. Mais tarde, reconheço Salman Rushdie passeando na livraria. Peço pra tirar uma foto.

 

Sexta-feira faz um solzão e fomos pra rodoviária pra pegar o Baú pra Trindade. Ônibus lotado de turistas nórdicos e farofeiros. Não conseguimos lugar pra sentar, fizemos todo o trajeto de quase uma hora em pé, tipo Windsurf.  Chegando lá, nos decepcionamos um pouco, pois não conseguimos enxergar a maravilhosa praia da qual todos diziam que era uma beleza. Pensei “Tá sol e estamos na praia, então pára de reclamar! A primeira praia é onde ficam as barracas de bebidas, pra ter acesso a segunda praia, era necessário fazer uma trilha por um morro. O nível de dificuldade era médio, mas com a chuva do dia anterior, tudo ficou mais escorregadio. Do outro lado do morro, a praia não era mais bonita, só era maior e sem comércio. O mar estava bravo e um salva-vidas disse pra não entrarmos, pois a correnteza estava puxando forte. Fumamos um béquei e tomamos coragem. Porra, depois de todo aquele esforço, a gente não iria dar um “tibum” na água? Karla entrou e saiu rapidinho, além de gelada, a força do mar não é brincadeira. Eu dei dois mergulhos rápidos pra sair congelado. Ficamos mais um tempo e depois voltamos pela trilha. O mar na primeira praia estava mais tranqüilo e pudemos entrar na água por mais tempo. Tive que sair, porque um casal muito suspeito, ficou rondando nossas coisas que deixamos na areia. Só foi eu ir me aproximando que eles se afastaram. Falando em roubo, pagamos R$10,00 por dois cocos e voltamos sentados confortavelmente numa van.

 

Sexta à noite não tinha pra onde correr, eu tinha que começar a vender as camisetas do Crumb ou tava fudido. Coloquei um monte de camisetas na mochila e a Karla foi levando uns livros e gibis na bolsa. Descemos no centro e eu coloquei duas camisetas com desenhos do Crumb no antebraço pra servir de mostruário. Muitos olhavam sem demonstrarem interesse, até que numa esquina, eu encontro ninguém mais, ninguém menos que o próprio Robert Crumb vindo na minha direção. Caralho, que escroto! Eu ergo o braço com as camisetas e balbucio algumas palavras em inglês tipo “eu fiz uma camisetas com seus desenhos!”. Ele pegou nas camistas e falou: “shirts!” e riu alto. Eu falei no meu bad english: “posso te dar umas camisetas?” Ele falou: “Ok!”.  Uma mulher que o acompanhava falou: “No! No!Tomorrow!”. Eu dei uns tapinhas no ombro dele (eu encostei no cara) e disse: “amanhã e te dou as camisetas!”. Ele respondeu: “Tomorrow, ok!”.  Fiquei felizaço, nem dava pra acreditar. Um lance que eu estava grilado desde o início era se ele ficaria puto de eu usar os desenhos dele sem autorização pra ganhar dinheiro. Na real, acho que ele se amarrou. Senti que o cara abençoou as camisetas e em pouco tempo, comecei a vendê-las. Fui de mesa em mesa mostrando os produtos. A maioria nem olhava direito e dizia não, acho que era trauma dos hippies. Não esmoreci. Quando uma menina que perguntou o preço, soube que o Crumb tinha tocado naquela camiseta, ela comprou na hora. No total, vendi seis camisetas e uns gibis, o que me deixou mais confiante em realizar a missão. No fim da noite, encontro a Alzira, menina do Rio gente fina que eu conheci no FIQ (BH) do ano passado e que é amiga dos caras da “Samba”. Ao lado dela estava um sujeito que eu sabia que já tinha visto em algum lugar, só não sabia onde. Aí acontece uma coisa inusitada, a Alzira falou pro cara que eu sou de Brasília e que faço quadrinhos e que o Muerteens é muito legal (ela é uma das 16 pessoas no mundo que possuem o zine das caveirinhas adolescentes). Eu fico meio envergonhado, porque sou mó tosco. Daí a gente aperta as mãos e ele diz que é o Rafael Coutinho. Demoro uns segundos pra cair a ficha e depois eu solto “meu irmão, Cachalote é ducaralho!” Aí foi a vez dele ficar envergonhado, mas o cara foi super gente fina. Dei um gibi do Quebraqueixo pra ele e tirei uma foto dizendo que vai pra galeria da fama.

 

 Sábado é dia de operação de guerra. Pego minha bolsa de viagem que adaptei com um carrinho de rodas e coloco as 14 camisetas do Crumb (e mais duas pra dar de presente pra ele), mais umas camisetas do Quebraqueixo, mais uns livros e gibis e mais um monte de livros do Crumb e do Shelton com a esperança de serem autografados. Devia ter uns 20 quilos de peso. Saímos meio-dia da pousada com a intenção de só voltarmos à noite. Indo pro ponto de ônibus, uma moça com duas crianças nos oferece carona pro centro. Bom presságio! Uma coisa boa de Paraty é que é tudo na paz, sem violência e o povo é muito amigável. Quase não existe criminalidade. Enquanto a Karla foi tentar vender os ingressos que tínhamos da Tenda do Telão, eu comecei a mostrar as camisetas. Logo um fiscal apareceu pra perturbar. Shit!

 

No estande de um famoso jornal, bebemos cafés expressos grátis e pegamos jornais igualmente gratuitos. Numa página quase inteira, vinha uma HQ sobre a vinda do Crumb e Shelton para Paraty escrita por Ivan Finotti e desenhada pelo Rafael Coutinho. Pouco tempo depois, trombo com o Rafael e dou os parabéns pessoalmente. Numa dessas circuladas, encontro o amigo Didiu e o amigo dele (que agora é nosso amigo) Robson. Eles vieram de São Paulo e estavam acampados num camping sinistro. Robson foi o primeiro a comprar uma camiseta do Crumb no sábado. Depois dele, o estoque foi diminuindo gradativamente. Encontrei um lugar na praça e fiquei lá mostrando as camisetas e gibis. Ao invés de ir às mesas, as pessoas é que vinham até a gente. Quem apareceu lá foi o Arruda, da Beleléu. Finalmente Paraty estava cheia de fãs do Crumb.

 

Até às 18:30, eu tinha vendido 12 das 14 camisetas e só não vendi mais por causa dos tamanhos pequenos que acabaram logo. A mesa do Crumb/Shelton estava marcada pras 19:30, então fechei o estabelecimento comercial e fomos na área dos autógrafos saber se já havia algum informação sobre as senhas. Ninguém sabia informar nada. Fomos uns dos primeiros a chegar na fila da entrada da Tenda dos Autores. No outro lado, na fila dos ingressos da desistência, estavam escritor de Brasília giovani ieminni, o desenhista Tiago “El Cerdo” e sua namorada. Fui falar com eles e aí é que fiquei sabendo a tramóia dos ingressos. È que quase tudo é “doado” pros patrocinadores e bem poucos são colocados à venda. Depois que todo mundo com ingresso entra, eles vendem os lugares que sobram, pois muita gente não comparece. Os três deram sorte de conseguirem entrar, ouvi dizer que uma pessoa queria pagar R$300,00 por um ingresso daqueles.

Por termos chegado com antecedência, nós conseguimos ficar bem no começo da fila, que logo foi ficando gigante. Comecei a conversar com uns garotos que me viram vendendo as camisetas e pediram pra olhar. As duas camisetas que sobraram eram bem grandes pra eles, mas um gorducho que estava lá perto tinha grana e levou a penúltima camiseta. Na seqüência chega uma senhora toda esbaforida pra falar com os garotos. Ela disse que estava perto do telão, quando um cara perguntou se ela queria um ingresso grátis pra essa mesa. Ela aceitou o ingresso e veio correndo. Todo mundo examina o ingresso, que parece ser autêntico e eles comemoram. Depois a gente entendeu a história: aquela senhora tinha dirigido 10 horas de carro trazendo o filho e dois amigos do interior de São Paulo pra eles assistirem essa mesa, mas ela não tinha ingresso Milagres acontecem!

No próximo post: a conclusão das fabulosas travessuaras de Esfolando em Paraty. Não Percam!

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6 Respostas to “ESFOLANDO A FLIP 2010 – PARTE TRÊS”

  1. paulo marchetti said

    Muito massa.

  2. Dagmar said

    essa fotografia da Karla com a sereira ficou “maravilhosa”!

  3. Gomez said

    porra titiu, conclui isso ai logo, o suspense tá matando.

  4. esfolando said

    Novela mexicana é assim mesmo! É que eu tô sem tempo, mas segunda ou terça eu acabo com essa agonia.

  5. poisé, a flip como festa deixou muito a desejar, foi apenas uma atividade formal com os escritores. o legal mesmo foram os eventos paralelos e as histórias dos acontecimentos.
    ano que vem tem mais.

    foi bom te ver lá, evandro.

    []s

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