Falar mal do Metal Open Air já nem tem mais graça. Foi uma grande decepção mesmo, não só pra quem foi prestigiar o evento, mas deveria ser também pra quem não foi. Já pensou se tivesse dado certo? Um festival gigante de metal todo ano? Agora que voltei do Maranhão, vejo que tem um monte de piada, gente chamando os roqueiros que estavam lá de trouxas, idiotas e tal. Ninguém ali era otário, não! Nós fomos testemunhar um grande acontecimento pra música pesada no Brasil, o que seria o primeiro de muitos, infelizmente, nós vimos o primeiro e possívelmente o último.

Quando soube das primeiras notícias que um grande festival de metal seria realizado em uma cidade do nordeste, comecei a cogitar a fazer esse rolé. Acabei virando um turista do rock, já que Brasília está fora do circuito internacional de shows. Falando em circuito, um dos motivos para ir ao festival, era justamente conhecer uma cidade nova e fugir do esquemão Sâo Paulo/ Rio de Janeiro. Sei que muita gente torceu o nariz para a inusitada escolha do local, por minha vez, acreditei (e continuo acreditando) que é importante explorar a pontencialidade da região nordeste na rota de grandes shows. Sem contar com Recife, que já está estabelecida como polo cultural e que muito de seu sucesso se deve ao posicionamento geográfico, relativamente perto de outras capitais como: João Pessoa, Maceio, Aracaju e Natal. Já São luís tem esse problema de ficar distante de outras capitais e os “produtores” deveriam ter levado isso em consideração.

As primeiras atrações confirmadas me desanimaram um pouco, não curto esse metal “voz fina com teclado”, mas quando anunciaram Anthrax e Fear Factory, já achei que valia à pena. Das 47 bandas, não conhecia muitas e outras já tinha certeza que não gostava. Muitas, eu nem chegaria a ver, porque tocariam em horários matutinos. Haveria alguns bônus como ver Ratos de Porão, Exodus e Venon. Também esperava ter alguma boa surpresa no meio do extenso line up.

No começo do ano, tomei coragem e numa lapada só, comprei as passagens, o ingresso (meia, mesmo sem ter carteirinha) e reservei três diárias de hotel, que somando tudo, deu um pouco mais de R$1.200,00. Esse valor foi até pequeno, comparado com pessoas que decidiram ir mais em cima da hora. Se por um lado, ser adiantado pode resultar em economia, também pode trazer alguns arrependimentos, como mais datas do Anthrax (com o Misfits) em outras cidades. Pra completar, nesse mesmo fim de semana rolariam o Festival Abril Pro Rock com uma programação bacana para o dia pesado e duas datas de Paul McCartney em Recife; um evento de quadrinhos em São Paulo e pra matar de raiva de vez, show do Brujeria em Brasília. Se o MOA tivesse rolado total, eu nem me importaria de ter perdido os outros eventos.

Com tudo comprado e reservado, aguardei com expextativa o dia da viagem. No dia 19 de abril (quinta-feira), véspera do primeiro dia do festival, começaram boatos que o evento poderia ser cancelado. Problemas de vários aspectos ameaçavam a sua realização, inclusive chuvas fortes que nada combinam com eventos “a céu aberto”. Essas e outras quase me tiraram o sono, já que eu pegaria um vôo para São luis na manhã de sexta-feira. Se tivessem cancelado antes, eu tentaria ir pra Recife (meu plano B), assumindo o prejuízo com alterações de passagens, provavelmente perderia as diárias já pagas do hotel e tentaria reaver a grana do ingresso posteriormente. No aeroporto, vários metaleiros ciculavam, todo mundo meio feliz, meio apreensivo. Eu e pelo menos 40 roqueiros de Brasília embarcamos no mesmo avião com a esperança de que o rock iria rolar.

Passava de meio dia quando chegamos no aeroporto, ou melhor, aerotenda da capital maranhense. Uma obra iniciada a quase dois, trasformou o aeroporto da cidade em uma ridícula tenda de lona e tapumes. A primeira impressão de quem chega, não é lá muito boa, imaginem a dos gringos! Rachei um taxi com o amigo Ciro, que escreve para o site de quadrinhos Raio laser. Ele se hospedaria em um hotel próximo ao meu e iria ao festival somente no 2° dia. Os primeiros quilômetros rodados em São Luis, mostram o que as propagandas turísticas omitem: pobreza. Fundada por franceses, invadida por holandeses, colonizada por portugueses e a décadas sendo dilapidada pela dinastia “5arney”, a cidade só poderia ser pobre e isso não é novidade. A paisagem só melhora quando nos aproximamos mais do centro e da área litorânea.

Apesar de um pouco antigo, meu hotel ficava na beira da praia de Ponta D’areia. Infelizmente, a praia era só para contemplação, pois é imprópia para nadar. Praia limpa, só muito longe dali. Dei uma descançada e às 17h fui tentar ir para o Parque Independência, onde rolaria os shows. Conversei com algumas moças locais que estavam na parada de ônibus e elas me desaconselharam a utilizar o transporte público. Ví que um cara que parecia roqueiro esperando o baú. Perguntei se ele ia pro show de rock. Ele disse “sim”! Perguntei se ele queria rachar um taxi. Resposta afirmativa. Perguntei da onde ele era. Brasília!

O lugar do evento era longe e congestionado. No trajeto, fiquei trocando idéia com o taxista, perguntando coisas da ciadade e tal. O tiozinho era meio marrento e falava pouco. Daí, perguntei se ele curtia o “5arney”, achando que ele esculacharia o velho político, mas o motorista respondeu: “Ele nunca me deu nada, mas também nunca me tirou nada!” Emendei: “Que ele nunca lhe deu nada, eu acredito, mas acho que ele pode ter tirado, você é que não percebeu!” Depois que descemos do taxi, é que eu lembrei de perguntar o nome do sujeito que estava indo comigo: “Carlos!” Ainda tivemos que andar à pé um pedação até chegar à bilheteria onde trocavam nossos convites por fitas no estilo “Sr do Bonfim”. Essa foi a primeira prova concreta de tosquidão do Festival.

A segunda prova foi na entrada, onde não havia segurança, só um casal comum. Não fomos revistados, o que indica que qualquer um poderia ter entrado armado ou com uma garrafa de pinga sem problemas. Também, não precisamos mostrar carteirinha de estudante (que eu não tinha e sei que muita gente pagou R$450,00 de inteira). Depois foram muitas outras provas na sequência. Andamos outro pedação e passamos por estábulos fedorentos, onde cavalos e outros animais ficam quando rolam feiras agropecuárias. Era exatamente ali os alojamentos pra quem veio ficar acampado e que depois se tornou escândalo quando foi noticiado a falta de condições e de respeito com os campistas. Além de estrume, carrapatos, ratos e baratas, não havia local para se tomar banho. Feio mesmo!

De longe, dava pra ver que dois palcos grandes estavam montados lado a lado e um tenda de dois andares para as mesas de som e luz. Nesse aspecto, achei que estava tudo ok, exeto pelos telões laterais colocados na vertical, o que distorcia e esticava as imagens. Outra prova de amadorismo, foram as várias barracas de cerveja montadas quase formando uma barreira a menos de 200 metros à frente do palco, impossibilitando a visão de quem estava atrás. Por sorte, a quantidade de público presente (vou chutar entre 7 e 8 mil pessoas) não enchia essa parte da arena, mas acredito que o 2° dia teria um público maior. Na real, o cara que tá afim de cerveja, anda quilômetros se for preciso. A falta de opções de comida e bebidas aliados a preços altos, também foram motivo de irritação dos presentes.

No momento que chegamos, a banda canadense Anvil estava se apresentando. Filmei a última música “Metal on Metal” (assista o video abaixo). Trobei com o Ithalo Kodó de Palmas (TO), que veio numa excursão viajando 24 horas de baú. Nessas horas é que percebo que meu esforço e decepção em ir a esse festival foi muito menor do que de muita gente que estava ali. Apesar dos pesares, os shows estavam acontecendo e o fantasma do cancelamento assustava menos.

http://www.youtube.com/watch?v=xtE9NwkTolI

Como disse no começo do texto, fui ao festival, não pelo line up e mais pelo evento em si. Nesse primeiro dia, eu não tinha muitas expectativas quanto a programação. Achei o Anvil legalzinho, mas quem escrotizou com força foi o Exodus. Showzão foda, circle pit gigante, os caras estavam afim de se destacarem no evento e conseguiram. Foi o que salvou legal.

http://www.youtube.com/watch?v=0VSK3ue2Akg&feature=youtu.be

Ví uns 20 minutos do Megadeth, que não é uma banda que me agrada muito, mas dadas as circustâncias, achei razoável. A cada música, Dave Mustaine parava, reclamava do som, falava com o povo. Para evitar confusão na saída, eu e o Carlos rachamos outro taxi. Ouvi depois que o show teve só uns 40 minutos, pois os problemas no som inviabilizaram a apresentação completa. Pelo menos os caras respeitaram o público e mesmo sem as condições ideais, cumpriram tabela.

Na volta, dava pra ver um monte de gente apinhada nos muros, vendo os shows de graça e com certeza, muitos entraram pulando. O taxista era engraçadão, foi falando mal do”5arney” e sua prole o tempo todo. Mostrava os lugares que o marimbondo fogoso era dono (emissoras de TV, rádios e jornais) e falando de suas falcatruas no estado.

No sábado à tarde, ouço boatos no hotel de que o Rock’n’Roll All Stars e Charlie Sheen haviam cancelado a apresentação. Temi pelo efeito dominó, mas mantive o otimismo de ver o Anthrax essa noite. Fui até o hotel onde Carlos e Ciro estavam hospedados pra ver se rachávamos um taxi. Não encontrei nenhum dos dois, mas tinha uma molecada metaleira que estava lá com péssimas notícias: Anthrax e várias outras bandas não tocariam mais. Além disso, estava rolando uma onda de assaltos na região. Eu não me dei o trabalho de ir ao local só pra passar mais raiva e gastar mais grana. Fiquei lá um tempo com a molecada de São Paulo e Goiânia, cada um contando sua aventura para estar em São luís. Uma coisa era certa, teríamos muitas histórias pra contar.

Volta e meia aparecia uma notícia nova, gente que ligava pra quem estava no local pra saber como estavam os shows. Na TV do bar do hotel, vimos a matéria sobre o festival no Jornal da Globo. Dava pra ver a lama formada pela chuva da madrugada anterior. Vergonha nacional via satélite. O interessante é que, se o festival tivesse dado certo, os grandes veículos da imprensa não falariam uma linha a respeito, mas como deu merda, virou notícia quente. Somente quatro bandas tocaram no sádado, enquato um dos palcos era desmontado. Ainda assim, o que se falava era que algumas bandas tocariam no domingo, entre elas Fear Factory. Ainda tinha esperança de ver um bom show antes de ir embora, esperança essa que foi enterrada na manhã de domingo, com o cancelamento oficial do agonizante evento.

Daí, foi aquela chatisse de não ter o que fazer o dia inteiro. Dei uma andada na praia, sem poder entrar no mar. Fui ao centro histórico, ver um monte prédios antigos e mal conservados, com seus famosos azulejos. Achei que lá estaria movimentado, mas parecia deserto. Quase nada aberto, só umas lojinhas fuleiras de artesanato ruim e um bar que estava cheio de metaleiros. Quando eu aponto os defeitos da cidade, eu não quero parecer arrogante ou preconceituoso, todas as capitais têm seus problemas. Só estou contando aqui o que eu e pude constatar. Se o festival fosse uma maravilha e meu humor estivesse melhor, talvez eu exergasse a cidade com melhores olhos, mesmo assim eu não eximiria o local de problemas tão visíveis.

Na manhã de segunda, mais uma andada na praia e arrumação de bagagem. Fui pro aeroporto às 15h com um taxista gente fina. Não pude deixar de perguntar sua opinião sobre o “5arney”. Ele disse saber de várias roubalheiras de El Bigodon, mas que o eterno político tinha trazido muito desenvolvimento para o estado. No fim das contas, minha pequena pesquisa tinha resultados díspares. Mas o que ví e percebi é que São Luís, prestes a completar 400 anos de sua fundação, é uma capital atrasada. Nada contra o seu povo, que sempre se mostrou simpático e receptivo, mas não tenho intenção de voltar lá tão cedo, muito menos pra ver um show de rock.

No aeroporto, uma barraca de camping armada (antes tinham mais) e um monte de metaleiros sentados na grama em frente ao prédio de lona. Equipes de filmagens entrevistam os roqueiros, que estampavam em seus rostos, um misto de cansaço e relvolta. Na reta final, todos concordavam que nosso principal prejuízo não foi o financeiro e sim, de não conseguirmos ver as bandas que queríamos. Às 17h, embarco rumo à Brasília e às 20h estou em casa, encerrando essa bad trip.

Deliberações finais:

1- A cidade de São Luís não tem culpa nenhuma do fiasco do evento e mesmo assim ficará com sua reputação manchada como um local de muitas frustações. Ela tem seus defeitos e qualidades com qualquer cidade, mas com todo o respeito, São Luís era um local inadequado por várias razões;

2- Todo ludovicense sabe que chove muito em abril;

3- Por ser a primeira edição, o festival não precisava ser tão grande. Dois dias, 20 bandas, cinco ou seis gringos já tava de bom tamanho. O preço do ingresso seria mais barato, o gasto com hospedagem e outras despesas diminuiriam. Com certeza, o público de fora seria bem maior. Dando certo, o evento tenderia a crescer naturalmente;

4- Produtores inexperientes, incompetentes e gananciosos, que deram um passo muito maior que a perna e acabaram dando uma rasteira em muita gente. Esperamos que sejam punidos;

5- Queimação de filme de nível internacional, com grave sequêlas e que ainda não sabemos o tamanho do estrago;

6- Desrespeito de algumas bandas com o público. Sabe-se que bandas internacionais que receberam todo o cachê e exigências atendidas, não tiveram peito de se apresentar. Problemas, tinham de montes, mas como ficam os fãs nessa hora? Vai lá meu irmão, sobe nessa porra de palco! Se tiver tudo uma merda, toca três músicas, pede desculpas e xinga a produção! Os fãs vão entender, mas mostrem as caras! Pelo menos finjam que estão ali por eles e não pela grana.

7- Parabéns à todos os roqueiros que lá foram e suportaram todas as adversidades com paciência, educação e paz. Não foi registrado nenhum incidente em que o público fosse o causador de violência, baderna ou depredação. Pelo contrário, o público é que foi vítima de assaltos, estelionato, incompetência, estrelismo, descaso, maus tratos e ainda assim, mostrou dignidade e força.

8- Parabéns às bandas que se dignaram a tocar e que tiraram o melhor disso tudo.

9- Parabéns às bandas que cancelaram suas apresentações, porque se sentiram lesadas e tiveram seus direitos violados;

10- Pra fechar, um pauzão no cu de você que não estava lá e que fez chacota com a situação, que torceu pra dar errado, que ficou rindo de quem se fudeu. Apesar de tudo, quem presenciou os acontecimentos, com certeza teve momentos bons, conheceu gente nova, conheceu lugares novos, deu boas risadas e até curtiram alguns shows. Pelos menos, bem ou mal, fizemos parte dessa história.

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ESFOLANDO O BOB DYLAN

abril 19, 2012

Por quase duas horas, a lenda do rock Bob Dylan mostrou uma pequena parcela de seu vasto repertório para o público brasiliense. No começo do show, o som estava bem ruim e demorou pra ficar razoável. O ginásio Nilson Nelson conseguiu deixar a voz anasalada de Dylan ainda mais tenebrosa.

No palco, nada de cenários ou efeitos pirotécnicos, nem um telão foi colocado, para que as pessoas que ocuparam as longínquas arquibancadas pudessem visualizar o show. A iluminação era feita de baixo para cima, projetando as sombras dele e de “sua” His Band no simples fundo de veludo cinza e só.

Nunca fui fã ou conhecedor da obra de Dylan, só conheço mesmo alguns sucessos, que ele fez questão de excluir do set list, apenas “Like a rolling stone” foi executada com um arranjo quase irreconhecível. Também não ouvimos da boca do músico, uma só palavra, nenhum “oi!” ou “obrigado”, mas parece que ele faz isso com todos.

No final, só voltou para uma única música de bis (assista o video abaixo) e partiu para sua “never ending tour”. Sei que pra muita gente esse foi um acontecimento histórico, emocionante, inesquecível. Pra mim, foi só mais um bom show de rock clássico.

http://www.youtube.com/watch?v=0UGifFyAOag

Estou concorrendo ao Prêmio Dynamite de Música Independente na categoria “personalidade”. Já sei que vou perder pro Laerte, mas tá valendo. Quem quiser votar, é só entrar no site: http://www.premiodynamite.com.br/ .

Taí o ROCK vs COMICS da minha ida à São Paulo, onde ví (pela 2° vez) o show de Jello Biafra And The Guantanamo School of Medicine e visitei a bela exposição “Ocupação Angeli”. Fiz uma versão com vermelho só pra WEB e a uma versão P&B, que será publicado no gibi.